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Autoria: |
Joel Timóteo Ramos Pereira. |
Publicação: |
Revista Vigiai e Orai (Brasil) |
Data: |
2004. |
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Desafio
Resuma os principais conflitos existentes em sua área de atuação do que diz respeito à ética cristã e o que mais afeta sua vida espiritual. Se possível, conte de forma breve alguma experiência onde sua fé foi colocada à prova em função de seu trabalho (Juiz de Direito).
A Justiça é não apenas um dos princípios basilares para a pacificação da sociedade. A preocupação com a justiça não é de hoje, pois ela está presente na mente humana desde o momento em que Adão e Eva pecaram, desobedecendo ao mandamento de Deus. Ao pecarem, esconderam-se, temendo a Justiça de Deus (Gén. 3:8) e o mesmo sentimento de temor teve Caim, logo após ter assassinado o seu irmão Abel, de tal modo que reconheceu que a sua maldade não podia ser perdoada e não fosse o sinal que Deus nele colocou, sabia que sendo fugitivo e vagabundo na terra, qualquer que o achasse o mataria para vingar o sangue de Abel (Gén. 4:14).
Ser Juiz de Direito implica apreciar as provas que são produzidas, aplicar e fazer cumprir a lei e decidir uma situação de litígio ou estabelecer uma sanção para quem violou as regras instituídas. Um dos principais conflitos emergentes da função de Juiz e da filiação em Jesus Cristo prende-se precisamente com a verdade. Muitas pessoas que depõem em Tribunal (designadamente, as testemunhas) não têm o temor de Deus nem necessariament prosseguem a verdade. A mentira, os "lapsos de memória" convenientes, a invenção e os falsos testemunhos para favorecimento de amigos ou familiares são uma constante. Não é de surpreender, porque já no tempo de Isaías o profeta enunciava que "ninguém há (&ldots;) que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e andam falando mentiras" (Isa. 59:4). Assim, discernir quem está a dizer a verdade e quem está a mentir é uma tarefa falível, pois somente o Senhor, nosso Deus, esquadrinha os corações e conhece todo o nosso entendimento (Jer. 17:10). Mas o Juiz é precisamente chamado a aferir, ponderar e concluir qual a versão dos factos que corresponde à verdade. Em consciência, quando julgamos, procuramos seguir o que é justo e recto, o que é de direito, mas há sempre a possibilidade de termos sido equivocados por um depoimento falso no qual indevidamente depositamos confiança.
A fé do cristão, que secularmente é Juiz de Direito, é colocada à prova diariamente, em todas as coisas. Desde logo no seu relacionamento com os outros profissionais (colegas magistrados, advogados, funcionários) e com as dezenas de pessoas com as quais o exercício da função implica o respectivo contacto. O bom testemunho, no sentido de ser um Juiz que procura a justiça e a verdade, que é independente e imparcial, sem ceder a influências ou pressões, é permanentemente colocado à prova, sobretudo quando alguém nos acusa indevidamente.
Foi precisamente numa dessas situações, cuja experiência passamos a descrever sinteticamente, que a fé foi posta à prova. Num processo em que entreguei uma criança à guarda e cuidados da mãe, o pai da criança que a explorava, recusou-se a entregar a criança à mãe e posteriormente às forças da autoridade, nessa altura invocando que a mãe da criança tinha dado um "grande suborno ao Juiz". Perante este aviltamento, que ficou exarado no processo, tinha necessariamente que participar criminalmente do mesmo, visando a reposição da verdade no processo. Mas poderia igualmente "persegui-lo" de outras formas, aplicando sanções mais duras ou peticionando um pedido de indemnização pela ofensa que o mesmo proferiu. Porém, na ponderação e na prova da fé, o Senhor foi comigo e o desejo carnal de "vingança" foi sobreposto com o desejo apenas de justiça e de reposição da verdade. Nessa altura, valeu-me a passagem de Isaías 51:7 - "Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo, em cujo coração está a minha lei; não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias". Mais tarde, em julgamento (por outro Juiz), o pai da criança confessou ser absolutamente mentira o que tinha afirmado, sendo junta essa declaração ao processo e assim expurgada qualquer dúvida ou suspeição sobre a minha conduta. A justiça e a verdade prevaleceram e o testemunho cristão de perdão sobre o acto que o mesmo tinha praticado foi igualmente passível de ser demonstrado.
O crente está submisso às leis de Deus, mas também não pode desprezar ou ignorar as leis emanadas e aplicadas por quem exerce autoridade. Lemos em Tito 3:1 a advertência para que obedeçamos e nos sujeitemos às autoridades. Podem existir e existem leis injustas, mas conquanto que isso não se reconduza à desobediência a Deus e aos Seus preceitos, devemos obedecer e cumprir o que está determinado nessas leis. Do mesmo modo que o advogado cristão defende os interesses dos seus representados, de acordo com a lei e a sua consciência e o Juiz cristão não pode deixar de aplicar a lei, mesmo que não concorde com ela, pois ele próprio está também sujeito à autoridade de quem legisla.
O desejo do meu coração é que o Senhor me ajude a ver diligentemente como ando - não como néscio, mas com a sabedoria de Deus, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus (Efésios 5:16). |
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