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SÓ DEUS FAZ JUSTIÇA


Autoria:

Joel Timóteo Ramos Pereira.

Publicação:

Livro de meditações

Data:

Janeiro de 2004.

Nos últimos tempos, o tema da justiça tem sido objecto de uma maior e permanente atenção. Não passa um dia sem que os órgãos de comunicação social, audiovisual ou escrita, se debrucem sobre acontecimentos que têm o seu palco no domínio da Justiça.

Não é, todavia, de hoje, a preocupação com a justiça, pois ela está presente na mente humana desde o momento em que Adão e Eva pecaram, desobedecendo ao mandamento de Deus. Ao pecarem, esconderam-se, temendo a Justiça de Deus (Gén. 3:8) e o mesmo sentimento de temor teve Caim, logo após ter assassinado o seu irmão Abel, de tal modo que reconheceu que a sua maldade não podia ser perdoada e não fosse o sinal que Deus nele colocou, sabia que sendo fugitivo e vagabundo na terra, qualquer que o achasse o mataria para vingar o sangue de Abel (Gén. 4:14).

Os filósofos da antiguidade também se ocuparam com a justiça e os valores que a constituem. Já Sócrates costumava fazer perguntas ambiciosas, como "o que é a justiça ?", "o que é a virtude ?", "o que é o conhecimento ?". Todavia, as suas respostas eram constantes dúvidas e o acumular de mais perguntas.

O fenóneno da criminalidade e da litigiosidade tem crescido não só em Portugal mas é um problema que afecta todas as nações. São inúmeros os factores passíveis de serem apontados como causas. Não é só o aumento desenfreado das cidades ou da solidão ou do abismo entre pobres e ricos, dos bairros degradados, do alcoolismo ou da droga. Isto porque os crimes e os conflitos têm aumentado quer na cidade, quer na província.

Sendo certo que os cidadãos estão mais consciencializados dos seus direitos, mas apesar do apelo à concórdia e à paz, o sentimento que emerge é o da discussão e da desordem. A família, pedra basilar da construção e desenvolvimento da sociedade, tem sido destroçada e destruída. Há leis que protegem outras formas de relacionamento entre as pessoas, inclusive concedendo-lhes maior benefícios fiscais e funcionais relativamente aos que decidem construir um lar segundo os padrões da normalidade bíblica e social. O número dos divórcios tem aumentado exponencialmente e o número dos casamentos tem decrescido em idêntica proporção.

Perante este cenário, está destruída a base do pleno e sadio desenvolvimento da família, da educação e dos valores. Muitas crianças crescem sem o sentido da virtude e tornam-se criminosos, contenciosos, enganadores. Os adultos seguem pelo mesmo caminho da mentira, da perversidade, dos pecados sexuais da prostituição, impureza, lascívia, envolvendo-se em idolatria, feitiçarias, porfias, emulações, iras, pelejas e dissensões. Ou seja, nas obras da carne (Gál. 5:19-21).

Tudo isto não é, todavia, motivo de surpresa para os filhos de Deus. O Senhor Jesus advertiu que "assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do homem" (Mateus 24:38,39). Os dias que vivemos são semelhantes aos dias de Noé e de Sodoma e Gomorra, onde a verdade era mentira e a mentira considerada verdade, onde a justiça se tornava injusta e o que era recto tinha passado a ser odiado.

O nome de Daniel, na Bíblia, significa "Deus faz justiça". Toda a sua vida foi a demonstração disso mesmo. Em conjunto com Ananias, Azarias e Misael, foi levado cativo para a Babilónia, entregando-se completamente ao desígnio de Deus, que segue com total fidelidade e recusando contaminar-se com os alimentos do rei que antes tinham sido sacrificados aos ídolos pagãos.

O crente está submisso às leis de Deus, mas também não pode desprezar ou ignorar as leis emanadas e aplicadas por quem exerce autoridade. Lemos em Tito 3:1 a advertência para que obedeçamos e nos sujeitemos às autoridades. Podem existir e existem leis injustas, mas conquanto que isso não se reconduza à desobediência a Deus e aos Seus preceitos, devemos obedecer e cumprir o que está determinado nessas leis. Do mesmo modo que o advogado cristão defende os interesses dos seus representados, de acordo com a lei e a sua consciência e o Juiz cristão não pode deixar de aplicar a lei, mesmo que não concorde com ela.

Daniel estava ciente de que a justiça não vinha de um qualquer teorema utópico idealizado pelo homem, apesar de todos os esforços e os sonhos de glória dos povos, mas que a Justiça era um desígnio exclusivo de Deus.

O reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Por isso, o cristão não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade (1 Coríntios 13:6). Possa cada cristão dizer como o Apóstolo Paulo: "Recebei-nos em vossos corações; a ninguém fizemos injustiça, a ninguém corrompemos, a ninguém exploramos" (II Coríntios 7:2).

A Palavra de Deus enuncia claramente a natureza da injustiça dos homens sem Cristo e da conduta que com que o cristão deve pautar a sua vida, pela qual se vê a justiça de Deus. Nela lemos: "Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto não sejais participantes com eles, pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (pois o fruto da luz está em toda a bondade, e justiça e verdade), provando o que é agradável ao Senhor e não vos associeis às obras infrutuosas das trevas, antes, porém, condenai-as; porque as coisas feitas por eles em oculto, até o dizê-las é vergonhoso. Mas todas estas coisas, sendo condenadas, se manifestam pela luz, pois tudo o que se manifesta é luz. Pelo que diz: Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede diligentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus (Efésios 5:6-16). Que esta seja, de facto, a nossa conduta, considerando a justiça dos homens à luz da Justiça de Deus.